O presente estudo investiga as tensões entre o imperialismo material e a busca por soberania digital na periferia do capitalismo, partindo do problema da opacidade infraestrutural das Inteligências Artificiais (IA). Justifica-se a urgência deste debate diante do fetiche da imaterialidade da "nuvem", um discurso hegemônico que oculta a base extrativista e o passivo ambiental da tecnologia. Questiona-se como os algoritmos operam regimes de informação que promovem o colonialismo visual ao "higienizar" territórios periféricos, configurando uma desinformação estrutural que apaga a materialidade das crises ambientais locais em favor de estéticas globais assépticas.
A fundamentação articula-se a partir da Economia Política da Comunicação (EPC) e dos Estudos Críticos em Ciência da Informação, utilizando a análise de Bolaño (2000) sobre a indústria cultural para discutir a subsunção da informação e do sensível à lógica do capital. Dialoga-se com a proposta de tecnodiversidade de Hui (2020), que reivindica a pluralidade das formas técnicas frente ao universalismo tecnológico, sustentando a necessidade de soberania informacional. Recorre-se ao conceito de regime de informação (Frohmann, 2004) para compreender a produção de verdade na rede e à geologia das mídias (Parikka, 2015) para confrontar a pretensa leveza do digital com sua densidade mineral. Essa síntese, complementada pela crítica ao extrativismo das Big Techs (Crawford, 2022), permite compreender a imagem como resultado de processos produtivos assimétricos que tensionam o território diante da automação estética estrangeira.
Metodologicamente, a pesquisa adota uma perspectiva crítico-descritiva pautada na análise comparativa de escalas informacionais. O procedimento consiste no confronto sistemático entre o testemunho de solo, pautado na fotografia documental de denúncia ambiental, e o simulacro algorítmico gerado por modelos de IA Generativa. O objetivo é identificar o hiato entre a informação situada no território — marcada pela rugosidade material — e a simulação automatizada. Esta abordagem permite desvelar a política de apagamento de evidências físicas e o sequestro da memória visual da periferia. Esta análise expande discussões prévias sobre os tensionamentos éticos e técnicos entre a prática fotojornalística e a geração de imagens sintéticas (Pucarelli; Tavares, 2023), situando-as agora sob a ótica do imperialismo material.
Discussões preliminares indicam que a IA opera um regime de invisibilidade que reforça a dependência colonial. Ao processar dados de territórios explorados do Sul Global, o algoritmo tende a suprimir a rugosidade documental em favor de padrões estéticos que atendem à economia da atenção do Norte Global, processo identificado como uma proletarização do sensível (Stiegler, 2019). Contra esse apagamento, reivindica-se a epistemologia ch'ixi (Rivera Cusicanqui, 2025), que reconhece as fraturas, a materialidade e as manchas das realidades periféricas como âncoras territoriais de veracidade que forcem a reintrodução da materialidade e da soberania no fluxo informacional. Conclui-se que o enfrentamento do colonialismo ambiental exige o reconhecimento de que toda visualidade possui um impacto geográfico. A pesquisa propõe a subordinação dos dispositivos técnicos ao índice de verdade do território, combatendo o imperialismo visual e protegendo a integridade informacional das periferias no sistema-mundo contemporâneo.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)